(Charles Bukowski traduzido por Rodrigo Garcia Lopes)
um bom poema é como uma cerveja gelada quando você está mais a fim, um bom poema é um sanduíche de presunto, quando você está faminto, um bom poema é uma arma quando os bandidos te cercam, um bom poema é algo que te permite andar pelas ruas da morte, um bom poema pode fazer a morte derreter feito manteiga, um bom poema pode enquadrar a agonia e pendurá-la na parede, um bom poema pode fazer seu pé tocar a China, um bom poema pode fazer você cumprimentar Mozart, um bom poema permite você competir com o diabo e ganhar, um bom poema pode quase tudo, isso sem dizer que um bom poema sabe quando parar.
quase apocalíptico (publicado no BaNco de PoEsia - revista eletrônica de literatura do meu amigo Cleto de Assis, que está completando dois anos de atividade)
02/12/2009
Poema feito e refeito
Erly Welton Ricci
Será necessária a queda do sol Marte explodindo sobre new york Chuva de pedras da lua
Serão necessários mares fervendo O gelo dos árticos encobrindo céus Esfoliação da pele dos ritos
Será necessário o sangue nas gruas A merda espalhada nos condomínios A praga de mil bestas rugindo
Será necessário plastificar o dia A unanimidade do grito no escuro Queimar as florestas nos meses pares
Serão necessárias moendas de carne Gases venenosos na superfície Baixar a cognição ao zero
Será necessária a acidez dos planos Satanizar deuses e gênios Tornar cinza todo amarelo
Será necessário uivar novamente Estriquinina jogada na fonte Sacrificar todo ente in vitro
Será necessário copiar os ossos Desfragmentar portas e janelas Ferir a noite permanentemente
Será necessária a massa dos muros O inferno que faz suar muitos sonhos Acumular dejetos na mesa
Será necessário inventar tantos mitos Comer a alma atirada na lida A filosofia do ouro e do sal
Serão necessários caminhos tortos Pedra na fronte e no sapato Transpor palavras com subescrituras
Serão necessárias as dores alheias Ouvir o ruído da fome e da sede Incendiar cidades e aldeias
Serão necessários alguns anos ainda Engravidar a mulher do próximo O sangue vulcânico nas veias
Será necessário um punhal no pescoço Mais de três bailarinas nuas Fumar raiz de jurema
Será necessário risível piedade muito gás carbônico na veia auras cheias de escamas
Será necessário cancelar as lendas a mente enredada na teia para criar novo plano
Isabela Bortolotto, filha do Mário, está em contato direto com o pai.
Ela contou que ontem avisou o Marião que os amigos vão fazer o tradicional
show da Saco de Ratos nesta quinta-feira, no Café Aurora.
Ele balançou a cabeça em sinal afirmativo. Contou também que a peça Brutal
vai ser apresentada na sexta-feira. Ele balançou a cabeça em sinal afirmativo novamente.
Marião está consciente e respondendo aos estímulos.
Só não pode falar ainda porque está com o tubo de respiração artificial,
que pode ser retirado nas próximas horas.
Fábio Brum avisou que o show vai rolar no mesmo horário e local: 22h30,
café Aurora (rua 13 de maio, 112). Entrada: R$ 5.
E na sexta-feira, antes da peça Brutal, alguns artistas amigos do Mário vão fazer uma exposição. Lourenço Mutarelli, Angeli e Grampá já confirmaram que vão doar desenhos.
A renda do show, da exposição (as obras serão vendidas)
e da peça vai para a família custear as despesas.
Marião está bem instalado, sendo muito bem cuidado. Mas sempre há despesas.
Foi aberta uma conta em nome da Cris, mãe da Isabela. Quem puder contribuir, eis o número:
Cristiane do Carmo Viana
Banco Unibanco
Agência: 0935
Conta poupança: 127721-6
Quem puder doar sangue também, para repor o que foi usado pelo Mário,
o hemocentro da Santa Casa fica na Rua Dr. Cesáreo Motta Jr, 112. Tel. 2176-7000.
Este foi o último texto de Mário postado dia 04/12
Mesmo dia em que levou quatro tiros quando tentava defender a atriz Guta Ruiz que tinha levado uma coronhada, durante um assalto no bar do Parlapatões, na Praça Rooselvet, em São Paulo.
Meu velho amigo dramaturgo, poeta, ator e diretor passou por duas cirurgias para a retirada das quatro balas, perdeu metade do sangue, mas está estável. Todos os seus amigos e conhecidos esperam que ele se recupere e realmente volte pra tomar alguns goles do melhor bourbon conosco.
Ontem a noite, vários artistas, produtores e agentes culturais fizeram uma manifestação contra a violência no mesmo local em que Mário foi covardemente baleado.
04/12/2009
A DIFICULDADE DE IR ATÉ A ESQUINA E ESSE GOSTO DE PASSPORT PRO INFERNO
A DIFICULDADE DE IR ATÉ A ESQUINA E ESSE GOSTO DE PASSPORT PRO INFERNO
Entendam que é difícil pra mim. O telefone toca, mas eu não quero levantar. Deixei "Stranded" do Van Morrison no repeat. Tem uma igreja medieval em cima da minha barriga e algumas orações que aprendi com meus avós na minha cabeça, mas parece que elas não me valem nada. Ainda sinto o gosto do Passport pro inferno. Preciso parar de ir pro Estrela da Roosevelt (o último refúgio que nem sempre nos recebe muito bem). Vou jantar com o Lobo e com a Mariana. Bons presságios. Acho que vou ganhar um Jameson hoje. Um Green Label na minha casa e eu bebendo Passport pro inferno. Eu voltei pro bar hoje. Eu sempre volto pro bar. Os amigos não acreditam quando me vêem entrando pela porta, de novo. Noite boa a de ontem. Grande show. Divertido pra caralho. Emocionante quando tinha que ser e divertido na hora certa. Os amigos se divertindo na platéia. E eu voltei pro bar. Quando ninguém mais acreditava que eu pudesse voltar. Eu tinha tudo pra não voltar, né? Mas eu sempre volto. Hoje recebo mensagens de outros amigos. Mas não quero levantar. Já ouviram "This love of mine" do Van Morrison?
Na eternidade, ninguém se julga eterno. Aqui, nesta estada, penso que vou durar além dos meus anos, que terei outra chance de reaver o que não fiz. Se perdoar é esquecer, me espera o pior: serei esquecido quando redimido.
Não me perdoes, Deus. Não me esqueças. O esquecimento jamais devolve seus reféns.
A claridade não se repete. A vida estala uma única vez.
O fogo é uma noz que não se quebra com as mãos. A voz vem do fogo, que somente cresce se arremessado. Não há como recuar depois de arder alto. Fui lançado cedo demais às cinzas.
Somos reacionários no trajeto de volta. Quando estava indo ao teu encontro, arrisquei atalhos e travessas desconhecidas. Acreditei que poderia sair pela entrada. Ao retornar, não improviso.
Minha conversão é pelo medo, orando de joelhos diante do revólver, sem volver aos lados, na dúvida se é de brinquedo ou de verdade.
O vento faz curva. Não mexo nos bolsos, na pasta e na consciência, nenhum gesto brusco de guitarra, a ciência de uma mira e o gatilho rodando próximo do tambor dos dentes.
Derramado em Deus, junto meu desperdício.
Vou te extraviando no ato de nomear. Melhor seria recuar no silêncio.
Cantamos em coro como animais da escureza. Os cílios não germinaram. Falta plantio em nossas bocas, vegetação nas unhas, estampas e ervas no peito. Suplicamos graves e agudos, espasmos e espanto, compondo esquina com a noite.
Cantar não é desabafo, mas puxar os sinos além do nosso peso, acordando a cúpula de pombas.
Somos fumaça e cera, limo e telha, névoa e leme. O inverno nos inventou.
Não importa se te escuto ou se explodes meus ouvidos de orvalho: morre aquilo que não posso conversar?
Ficarei isolado e reduzido, uma fotografia esvaziada de datas. Os familiares tentarão decifrar quem fui e o que prosperou do legado. Haverei de ser um estranho no retrato de olhos vivos em papel velho.
Escrevo para ser reescrito. Ando no armazém da neblina, tenso, sob ameaça do sol. Masco folhas, provando o ar, a terra lavada. Depois de morto, tudo pode ser lido.
Vejo degraus até no vôo. Tua violência é a suavidade. Não há queda mais funda do que não ser o escolhido, amargar o fim da fila, ser o que fica para depois, o que enumera os amigos pelos obituários de jornal, o que enterra e se retrai no desterro, esfacela a rosa ao toque na palidez das pétalas e velas, vistoriando cada ruga e infiltração de heras entre as veias, nunca adulto para compreender.
Não há nada de natural na morte natural. Divorciar-se do corpo, tremer ao segurar as pernas, acomodar-se no finito de uma cama e deitar com o tumulto que vem de um túmulo vazio.
Capas da revista Bric a Brac, publicada em Brasília, no final dos anos 80, começo dos 90. Bric a Brac era uma revista de poesia! (um pouco antes de entrarmos na Era da Mediocridade). A revista era editada por Luis Turiba, Lucia Miranda Leão, João dos Reis Borges e Luis Eduardo Resende (Resa) – autor das duas capas acima.
Revista de literatura e arte, Coyote alcança 19ª. edição, nadando contra a corrente, remando contra a maré. Que editores e colaboradores consigam ir ainda mais longe, amém!
Thomaz Albornoz Neves entrevistou, em 1993, o poeta pernambucano João Cabral de Melo Neto (1920-1999), no apartamento carioca do autor de Morte e vida Severina. Apenas uma pequena parte da conversa entre os dois foi publicada na revista Interpoesia, em 1998. O resto permanecia inédito. O 19º. número da Revista Coyote [Kan Editora, distribuição nacional: Iluminuras, 52 páginas, R$ 10,00, pedidos pelo http://www.sebodobac.com.br; alô, livrarias e sebos de São Luís: ninguém se interessa?] traz a íntegra da entrevista com o “cabra lírico”. E este é apenas um dos destaques da revista de literatura e arte que, só por conseguir resistir e chegar a esta 19ª. edição, já merece nossos uivos, digo, aplausos (que tal uivarmos batendo palmas?), pela resistência, insistência, perseverança e, mesmo, teimosia de seus editores.
Ademir Assunção (SP), Marcos Losnak (PR) e Rodrigo Garcia Lopes (PR), inventam e reinventam a publicação sediada em Londrina (PR) e que resiste bravamente, até aqui – e esperamos que por muito tempo ainda –, graças ao apoio do Programa Municipal de Incentivo à Cultura de Londrina. Engana-se quem pensa que, com isso, a revista se fecha no próprio umbigo e traz apenas poetas da terra de Leminski. Muito ao contrário: é na Coyote que conheço novas vozes nos campos a que se dedica a publicação (literatura e arte, convém lembrar) e (re-)leio vozes, não direi velhas – há coisas que simplesmente não envelhecem –, mas fundamentais.
Com um belíssimo projeto gráfico, a revista transpira qualidade da primeira à quarta capa: tudo ali é arte. A “matilha” da 19, além de João Cabral e seu entrevistador Thomaz Albornoz Neves, e do editor (da revista) Ademir Assunção – que brinda o público leitor com poemas inéditos –, apresenta nomes como George Oppen (poeta ianque do Grupo Objetivista, formado nos anos 30, falecido em 1984), Teo Adorno (quadrinista e ilustrador paulista) e Ernesto Sabato (doutor em física nuclear, um dos maiores nomes da literatura argentina, nascido em 1911), entre outros, além da tradicional quarta capa, ilustrada pelo Beto, já reconhecida como a capa dos “movimentos”.
TRECHOS DA COYOTE 19
“Tenho a impressão que, por um lado, sou muito mais visual que plástico, por outro não sou nada auditivo. Estou com Voltaire, a música é o menos desagradável dos barulhos. Eu não tenho o menor interesse por música. (...). Minha poesia é toda visual: ela se afasta da linguagem abstrata. A linguagem que me interessa é a linguagem concreta. Meu esforço é justamente, usando o título do livro de Paul Éluard, Donner a Voir [Dar a ver]”.
João Cabral de Melo Neto, em entrevista a Thomaz Albornoz Neves, em 1993
*
“luzes esverdeadas na tela/ da TV, pipocas de microondas,/ pipocos digitais, sim,/ olha lá, olha lá, santelmo/ riscado do mapa,/ cochabamba para bailar la bamba,/ titicaca não passa de titica,/ brasília era só uma ilha, cercada/ de cucarachas e carcamanos,/ quem vai sentir falta/ dessas baratas?, soca mais bombas/ na bunda dessa indiarada, pow,/ crash, soc, e que se fodam/ todos los hermanos, cambada/ de terroristas islâmicos,/ papai me disse que eles comem/ gente, vai vendo, e ainda usam as tíbias/ como palitos de dente”
Ademir Assunção, Videogame, da seleta de inéditos Boa noite, Mister Mistério
Saiu a nova Coyote, revista que edito com Marcos Losnak e Ademir Assunção. Já são 7 anos editando a bagaça. Este número tá imperdível. Por que?
1) Por trazer uma entrevista inédita de João Cabral de Melo Neto
2) Por um conto do norte-americano Donald Barthelme,
3) Por trazer traduções da poeta espanhola radicada no Paraguai, Montserrat Alvarez
4) Poela história em quadrinhos de Teo Adorno, com roteiro de Luiz Bras
“Quando estava morando em Barcelona, tinha acabado de escrever e publicar a ‘Psicologia da Composição’ e estava certo de que não iria mais escrever poesia. (...) Tinha a impressão que havia chegado a um extremo tal de intelectualismo, por assim dizer, com a ‘Psicologia da Composição’, que não tinha mais sentido seguir naquele caminho." A revelação surpreendente de João Cabral de Melo Neto dá o tom da entrevista feita pelo poeta gaúcho Thomaz Albornoz Neves, no outono de 1993 – um dos destaques da nova edição da revista Coyote.
Em seus sete anos de atividade, Coyote prossegue abrindo espaço para novos autores, resgatando e apresentando nomes importantes das letras e das artes, de épocas e lugares diferentes, instigando a reflexão e a criação literária. A revista é patrocinada pelo PROMIC (Programa Municipal de Incentivo à Cultura) da cidade de Londrina.
COYOTE 19 // 52 páginas // R$ 10,00 Uma publicação da Kan Editora. Vendas em livrarias de todo o país pela Editora Iluminuras – fone (11) 3031-6161 (site: www.iluminuras.com.br). Pode ser adquirida também na internet pelo Sebo o Bac: www.sebodobac.com Contatos: losnak@onda.com.br / rgarcialopes@gmail.com / zonabranca@uol.com.br Fone: (43) 3334-3299 / (11) 3731-3281
PATROCÍNIO: PROMIC - PROGRAMA MUNICIPAL DE INCENTIVO A CULTURA – SECRETARIA MUNICIPAL DE CULTURA DE LONDRINA (PR)
Em cruzar a sala zumbindo sua navalha o besouro-ébano espanta
o piano que se ergue atrapalhado, plantado na ponta das patas
sem poder, do chão, tocar o ouro absoluto da negra couraça que inseta
o ar ali com sua canção. E o pobre Steinway supõe ser a nave
um sinal, um seu semelhante, um filho talvez. ____________________________________
A BELA E A FERA II Eucanaã Ferraz
Em cruzar a sala zumbindo o ouro negro de sua couraça o besouro
absoluto ébano espanta o piano que, plantado no chão, ergue-se
atrapalhado na ponta das patas sem poder tocar a nave que navalha
o ar com sua canção-verniz. E o pobre Steinway supõe ser o inseto
ali um sinal, um seu semelhante, talvez um filho. ___________________________________
NA GÁVEA Luís Miguel Nava
Ocorre-me de vez em quando a idéia de que o homem que nos barcos sobe à gávea o faz na realidade apenas para perscrutar a sua própria pele, obter dela uma outra perspectiva, funcionando o mar como uma representação muito aumentada, qualquer coisa como uma metáfora ou uma lente. É pelo menos desse homem que eu me lembro sempre que sobre a minha pele, inquieto, me debruço, a avaliar os mais leves prenúncios de intempéries.
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PEDRA Zbigniew Herbert
A pedra é uma criatura perfeita
igual a si mesma percebe seus limites
é perfeitamente preenchida por seu sentido de pedra
seu cheiro não lembra nada não assusta não excita
seu ardor e frieza são justos e dignos
sinto um grande remorso quando a pego na mão e seu corpo nobre é envolvido pelo meu falso calor
- Pedras não podem ser domadas até o fim nos olharão com olhos calmos e transparentes
Tradução_Sylvio Fraga Neto e Danuta Nóbrega
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OBJETOS Zbigniew Herbert
Os objetos inanimados são sempre corretos e, infelizmente, não se pode censurá-los por nada. Jamais vi uma cadeira deslocar o peso de um pé para outro, nem uma cama empinar-se sobre as patas traseiras. E as mesas, mesmo quando cansadas, não ousam dobrar os joelhos. Desconfi o que os objetos ajam assim com intenção pedagógica, a fi m de nos reprovar constantemente por nossa instabilidade.
Eu queria ser uma sentinela, Fumando e esperando. Vigiando e fumando. Quem vigia não pensa, fuma, Quem pensa não vigia, deserta. Eu fumaria e vigiaria a noite inteira, Esperando, esperando, até eles não chegarem. Fumando como uma sentinela.
THE ART OF SHAVING
Quando eu era um rapazola, Barbeava-me apressado, displicente, Mal sabia eu que, dentre os petrechos para tanto, Havia o pincel com pêlos de texugo.
Hoje, os vapores me abrem os poros da pele, A lâmina é sempre afiada, constantemente substituída, O barbear é lento, calmo, porém rigoroso e ritmado, E há sempre cosméticos que esfoliam, suavizam, acalmam.
Se tens tu uma bela barba, cultive-a. Mas se fores rapar a cara, faça-o com tempo. O barbear sempre diferencia o Aristocrata do Pelintra.
Eu nunca vi um texugo, mas sei que eles existem, E que dão os melhores pincéis, pois, há coisas de sabença mais antiga. Que não são aprendidas, somente sabidas e consabidas.
EUGÊNIA
A primeira vez que vi Eugênia me apaixonei. A segunda vez que vi Eugênia nos casamos. A terceira vez que vi Eugênia ela se tornou mãe dos meus filhos. A quarta vez que vi Eugênia pedi desculpas, e ela aceitou. A quinta vez que vi Eugênia ela estava morta, coberta por um véu diáfano. E olhe que nem tivemos tempo para uma conversa sincera.
Vulcões de asbestos, voragens de pó e lacunas de relva.
No rebatimento da luz, azul se espalha,
E lenta vem a noite, espelho negro espesso
revelando furos na lona do circo eterno
pontos em negativo na tela branca
os olhos do tigre de Blake.
Rodrigo Garcia Lopes (foto), de quem já publiquei neste espaço vários poemas e traduções, nasceu em Londrina (Paraná, Brasil), a 2 de outubro de 1965. Formado em Jornalismo, em 1984-85 viajou pela Europa e, na volta, publicou a página literária "Leitura" e as revistas "Hã". Trabalhou em jornais e veículos literários em São Paulo ("Ilustrada") e Curitiba ("Nicolau"). De 1990 a 1992 viveu nos Estados Unidos, onde realizou mestrado na Arizona State University com tese sobre os romances de William S. Burroughs. Neste período, também reuniu material para seu livro de 19 entrevistas com escritores e artistas (como John Ashbery, William Burroughs, Marjorie Perloff, Allen Ginsberg, Nam June Paik, Charles Bernstein and John Cage). O livro, "Vozes & Visões: Panorama da Arte e Cultura Norte-Americanas Hoje" foi publicado pela Iluminuras em 1996. Em seu retorno, lançou "Solarium", que reúne sua produção poética desde 1984. Em 1996 publicou a tradução das "Illuminations" de Rimbaud (também pela editora Iluminuras). No ano passado lançou seu segundo livro de poemas, "visibilia" (Rio de Janeiro: Sette Letras). Ao longo destes anos traduziu, entre outros, a poesia de Ezra Pound, Sylvia Plath, William Carlos Williams, Robert Creeley, Gertrude Stein, Laura Riding, Gary Snyder, Charles Bukowski, John Ashbery, Jim Morrison, e Samuel Beckett. Em 1998 foi curador da exposição "Olhares", do fotógrafo nipo-brasileiro Haruo Ohara, que participou da Bienal Internacional de Fotografia, em Curitiba. Atualmente prepara tese de doutorado sobre a poesia de Laura (Riding) Jackson e realiza performances de poesia & música pelo Brasil. Vive na ilha de Florianópolis, onde prepara novo livro de poemas.
26 AFORISMAS SOBRE POESIA (de rodrigo garcia lopes)
1.
Permanece um mistério o fato de que vivemos em estado permanente de linguagem. A poesia é o instrumento ideal para captar este mistério.
2.
Mu Ga não é parar o pensamento: é perceber o pensamento.
3.
Cada vez mais a persistência da idéia de poesia radical entendida em seu sentido etimológico, do latim radix, raiz, base, fundamento. Uma poesia que investiga sua própria ocorrência, ramificações, vis-à-vis seu encontro com o mundo, indo na raiz do problema: para o poema, esta raiz é a palavra.
4.
A abstração é a natureza da mente, não a mente um reflexo da consciência.
5.
O desafio está em não cair numa metalinguagem barata. Ou solipsismo ("não há nada fora de minha mente"). Ao contrário, o poema é um encontro em nosso território comum, nosso habitat.
6.
Poeta é quem que provoca música com os vocábulos. E afasta a afasia. Certa aversão pela idéia difundida pelo senso-comum da vida (e da poesia) como algo contínuo. Poemas são seres vacilantes, como animais, ORGANISMOS, e parecem estar o tempo todo querendo incorporar o caráter fragmentário e material da experiência. Por isso, parecem muitas vezes "incompletos".
7.
Se "poesia é a promessa de uma linguagem" (Hölderlin), então o poema é um não-lugar, uma utopia. Seu sentido é seu movimento.
8.
O poema é um ultraje (outrage), um contra-texto.
9.
De olhos fechados: o universo é vermelho.
10.
Você diz
que não há nada de novo
sob o sol.
Isso pode valer para o sol,
mas não para nós.
(apud Apollinaire)
11.
Um "eu" que é um olho, o olho que é um outro, o outro que é um. A consciência da consciência. Um teste de solitude.
12.
Poder pensar, como Paul Cézanne, que as palavras é que se pensam através de mim.
13.
A natureza nos desconstrói sem que notemos, e a noite restaura a memória das percepções que usaremos, no dia seguinte, para reconstruir a natureza e a nós mesmos.
14.
Nos fala, nos media, nos habita. Sempre a caminho. Não há como escapar. Nelas estamos em nossa única casa, ou fora, ou estamos a sós.
15.
Todas as abordagens poéticas (seja através de iluminuras, personas, objetivos correlativos, colagem, simultaneismo, pastiche, ostranenie, ideograma, non-sequitur) desembocam, por operações distintas, na grande questão: o espaço habitado pela poesia enquanto matéria mental, entre palavra e mundo. Entre estar mudo e ser mundo.
16.
O nome do ventríloco era Eulírico. ("Já meu nome é eutro: o intervalo entre palavra e mundo").
17.
O poema nasce enquanto o procuramos.
18.
Como numa história de detetive, o poema, hoje, é um enigma. Seu crime começa já nas primeiras palavras. O poema nada mais é que uma seção de correlatos do sentido suspensos entre pistas falsas, fragmentos de perfis, frustrações de expectativas, que apontam inequivocamente para sua própria aparição & desaparição. O nome dessa luta invisível é o sentido.
Whodunit?
19.
Raízes rebentam o ventre da terra: pensamento selvagem.
20.
A prosa parece se traduzir em ser vidro transparente, enquanto a poesia revela manchas de mão no vidro, trincas, poeira, as imperfeições da superfície.
21.
Talvez poemas devessem ser mais que simplesmente escrita sobre experiências, e sim escrita como experiências.
22.
Produto e processo, num poema, têm que ser pensados juntos. O que e como são siameses. Esmero excessivo desvirtua o palácio da sabedoria.
23.
O desafio tem sido esse: investigar como se dá o processo de transferência do mundo "real" ao mundo "poético". Me interessa este momento único que se dá na percepção: no choque do "dentro" com o "fora" (Como aquilo virou isto?). E o poema seria exatamente a tradução simultânea desta percepção em palavra, energia, usina, poesia. E o poema surge como o resultado desse atrito entre consciência e mundo, fruto dessa tensão e, antes que me esqueça, desse prazer.
24.
O momento em que o poema se fecha é o momento em que ele se abre para o leitor.
25.
A idéia tradicional de prosa, para mim, é que o texto parece nos colar numa temporalidade, um estado absortivo, com as palavras quase parecendo passar transparentemente da página para a mente, ("uma câmera filmando tudo isso", sem erros de continuidade), enquanto a poesia atua com mais freqüência em saltos, cortes, surpresas, desconstruções sintáticas, frustração de expectativas, associações, conexões, desconexões.
26.
Vai ver a poesia seja uma necessidade estética da consciência.
chuva de verão espremida entre os bambus minha aldeia
Issa Kobayashi
samidare no take ni hasamaru zaisho kana
my native village squeezed in among the bamboos, in the summer rain
(RH Blyth tradução)
E aqui termina minha pequena série de traduções/recriações para apresentar Issa. Já pensei em traduzi-lo todo e tenho várias outras tentativas. Mas, tentativas que são, ainda não podem ser apresentadas. Gosto de seu jeito de dizer a verdade nua e crua, de uma forma clara, humorada e, às vezes, um pouco grosseira. Sua poesia fluia com a liberdade do pensamento, sobre todos os temas, inclusive o sexo, tema tabu para a maioria dos haijins. Assim que resolver alguns desses, terá mais Issa nessas páginas.Alice Ruiz
Neuza Pinheiro, poeta, cantora e compositora (já atuou com Arrigo Barnabé (veja vídeo) e gravou um dos mais belos discos da boa música) está finalmente publicando seus poemas, idéias e escritos num blog. O poema abaixo foi tirado de lá, mas só para fazer propaganda.
Meu amigo Mário Bortolotto me enviou convite por e-mail e estou estendendo aos meus leitores. Vão lá, vai ser um evento imperdível pra quem gosta do bom rock'n'roll e de um blues como poucos no Brasil sabem fazer:
"Amalfi e eu montamos essa banda em 2.003, no Teatro Cemitério de Automóveis (que a gente tinha lá na Rua Conselheiro Ramalho). Quando acabavam as peças, o Amalfi pegava uma guitarra, eu pegava outra e a gente ficava tocando lá embaixo. Um dia fui na casa dele com algumas letras e a gente fez de cara seis músicas. A primeira foi "Janelas". O primeiro show da banda foi no Teatro mesmo, no lançamento do meu livro "Bagana na Chuva". Cinco anos depois estamos conseguindo finalmente lançar o CD. Não foi fácil e queria dedicar esse lançamento pro Napetinha (Noa Stroeter - o baixista da banda) que tá na Holanda agora, mas que com certeza gostaria muito de estar amanhã com a gente lá no Sesc Vila Mariana. O carinha que tá substituindo o Noa (o Caçarola) é muito bom também e tá tudo certo, mas seria du caralho ter o Napetinha tocando amanhã com a gente. É muito difícil reunir essa banda porque a rapaziada toca em uma porrada de lugares. São todos ótimos músicos tipo aqueles caras que estudam música desde moleques (aliás os quatro fizeram faculdade de música e eram da mesma turma). Mas amanhã a gente vai estar lá lançando o nosso CD. O Fábio Brum deve participar tocando guitarra em algumas músicas e talvez o Paulão apareça pra cantar "Coçando o saco e ouvindo blues". Enfim, vai ser du caralho".
Tempo Instável é :
Mário Bortolotto (vocal)
Marcello Amalfi (guitarra e trompete)
Fernando Miranda (piano e teclados)
Caçarola (baixo) Conrado Maia (bateria)
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Terça-feira (dia 13 de Janeiro)
Lançamento do CD "Tempo Instável" Sesc Vila Mariana - Auditório Rua Pelotas, 141
R$ 12,00 - Inteira R$ 6,00 - estudante, usuário matriculado no SESC e dependentes R$ 3,00 - trabalhador no comércio e serviços matriculado no SESC e dependentes