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Poemas da Revista Piauí para o Flip

A BELA E A FERA I
Eucanaã Ferraz

Em cruzar
a sala zumbindo
sua navalha o besouro-ébano espanta

o piano que se ergue atrapalhado,
plantado na ponta das
patas

sem poder,
do chão, tocar o ouro
absoluto da negra couraça que inseta

o ar ali com sua canção. E o pobre
Steinway supõe ser
a nave

um
sinal, um
seu semelhante, um filho talvez.
____________________________________

A BELA E A FERA II
Eucanaã Ferraz

Em cruzar a sala zumbindo o ouro negro
de sua couraça
o besouro

absoluto
ébano espanta
o piano que, plantado no chão, ergue-se

atrapalhado na ponta das patas sem poder
tocar a nave que
navalha

o ar
com sua canção-verniz. E
o pobre Steinway supõe ser o inseto

ali um sinal, um seu semelhante,
talvez um
filho.
___________________________________

NA GÁVEA
Luís Miguel Nava

Ocorre-me de vez em quando a idéia de que o
homem que nos barcos sobe à gávea o faz na
realidade apenas para perscrutar a sua própria
pele, obter dela uma outra perspectiva, funcionando
o mar como uma representação muito
aumentada, qualquer coisa como uma metáfora
ou uma lente. É pelo menos desse homem
que eu me lembro sempre que sobre a minha
pele, inquieto, me debruço, a avaliar os mais
leves prenúncios de intempéries.

___________________________________

PEDRA
Zbigniew Herbert

A pedra
é uma criatura perfeita

igual a si mesma
percebe seus limites

é perfeitamente preenchida
por seu sentido de pedra

seu cheiro não lembra nada
não assusta não excita

seu ardor e frieza
são justos e dignos

sinto um grande remorso
quando a pego na mão
e seu corpo nobre
é envolvido pelo meu falso calor

- Pedras não podem ser domadas
até o fim nos olharão
com olhos calmos e transparentes

Tradução_Sylvio Fraga Neto e Danuta Nóbrega

___________________________________

OBJETOS
Zbigniew Herbert

Os objetos inanimados são sempre corretos e,
infelizmente, não se pode censurá-los por nada.
Jamais vi uma cadeira deslocar o peso de um
pé para outro, nem uma cama empinar-se sobre
as patas traseiras. E as mesas, mesmo quando
cansadas, não ousam dobrar os joelhos. Desconfi o
que os objetos ajam assim com intenção
pedagógica, a fi m de nos reprovar constantemente
por nossa instabilidade.

Tradução_Paulo Henriques Britto



Escrito por Erly Welton às 14h26
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 Oficina de Textos

Poemas

      
SENTINELA
       
Eu queria ser uma sentinela,
Fumando e esperando.
Vigiando e fumando.
Quem vigia não pensa, fuma,
Quem pensa não vigia, deserta.
Eu fumaria e vigiaria a noite inteira,
Esperando, esperando, até eles não chegarem.
Fumando como uma sentinela.
       
THE ART OF SHAVING
        
Quando eu era um rapazola,
Barbeava-me apressado, displicente,
Mal sabia eu que, dentre os petrechos para tanto,
Havia o pincel com pêlos de texugo. 
        
Hoje, os vapores me abrem os poros da pele,
A lâmina é sempre afiada, constantemente substituída,
O barbear é lento, calmo, porém rigoroso e ritmado,
E há sempre cosméticos que esfoliam, suavizam, acalmam.
       
Se tens tu uma bela barba, cultive-a.
Mas se fores rapar a cara, faça-o com tempo.
O barbear sempre diferencia o Aristocrata do Pelintra. 
      
Eu nunca vi um texugo, mas sei que eles existem,
E que dão os melhores pincéis, pois, há coisas de sabença mais antiga.
Que não são aprendidas, somente sabidas e consabidas. 
      
EUGÊNIA 
        
A primeira vez que vi Eugênia me apaixonei.
A segunda vez que vi Eugênia nos casamos.
A terceira vez que vi Eugênia ela se tornou mãe dos meus filhos.
A quarta vez que vi Eugênia pedi desculpas, e ela aceitou.
A quinta vez que vi Eugênia ela estava morta, coberta por um véu diáfano.
E olhe que nem tivemos tempo para uma conversa sincera.
       
   
Rogério Gaspari Coelho, São Paulo - SP

 



Escrito por Erly Welton às 14h18
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KOSMOS


A página começa a ler você,

ser aquilo que você sonhava ser:

Pacto contra o nada,

jardim veloz de acantos, planetários,

Vulcões de asbestos, voragens de pó e lacunas de relva.

No rebatimento da luz, azul se espalha,

E lenta vem a noite, espelho negro espesso

revelando furos na lona do circo eterno

pontos em negativo na tela branca

os olhos do tigre de Blake.


Rodrigo Garcia Lopes (foto), de quem já publiquei neste espaço vários poemas e traduções, nasceu em Londrina (Paraná, Brasil), a 2 de outubro de 1965. Formado em Jornalismo, em 1984-85 viajou pela Europa e, na volta, publicou a página literária "Leitura" e as revistas "Hã". Trabalhou em jornais e veículos literários em São Paulo ("Ilustrada") e Curitiba ("Nicolau"). De 1990 a 1992 viveu nos Estados Unidos, onde realizou mestrado na Arizona State University com tese sobre os romances de William S. Burroughs. Neste período, também reuniu material para seu livro de 19 entrevistas com escritores e artistas (como John Ashbery, William Burroughs, Marjorie Perloff, Allen Ginsberg, Nam June Paik, Charles Bernstein and John Cage). O livro, "Vozes & Visões: Panorama da Arte e Cultura Norte-Americanas Hoje" foi publicado pela Iluminuras em 1996. Em seu retorno, lançou "Solarium", que reúne sua produção poética desde 1984. Em 1996 publicou a tradução das "Illuminations" de Rimbaud (também pela editora Iluminuras). No ano passado lançou seu segundo livro de poemas, "visibilia" (Rio de Janeiro: Sette Letras). Ao longo destes anos traduziu, entre outros, a poesia de Ezra Pound, Sylvia Plath, William Carlos Williams, Robert Creeley, Gertrude Stein, Laura Riding, Gary Snyder, Charles Bukowski, John Ashbery, Jim Morrison, e Samuel Beckett. Em 1998 foi curador da exposição "Olhares", do fotógrafo nipo-brasileiro Haruo Ohara, que participou da Bienal Internacional de Fotografia, em Curitiba. Atualmente prepara tese de doutorado sobre a poesia de Laura (Riding) Jackson e realiza performances de poesia & música pelo Brasil. Vive na ilha de Florianópolis, onde prepara novo livro de poemas.




Escrito por Erly Welton às 17h46
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26 AFORISMAS SOBRE POESIA (de rodrigo garcia lopes)

1.

Permanece um mistério o fato de que vivemos em estado permanente de linguagem. A poesia é o instrumento ideal para captar este mistério.

2.

Mu Ga não é parar o pensamento: é perceber o pensamento.

3.

Cada vez mais a persistência da idéia de poesia radical entendida em seu sentido etimológico, do latim radix, raiz, base, fundamento. Uma poesia que investiga sua própria ocorrência, ramificações, vis-à-vis seu encontro com o mundo, indo na raiz do problema: para o poema, esta raiz é a palavra.

4.

A abstração é a natureza da mente, não a mente um reflexo da consciência.

5.

O desafio está em não cair numa metalinguagem barata. Ou solipsismo ("não há nada fora de minha mente"). Ao contrário, o poema é um encontro em nosso território comum, nosso habitat.

6.

Poeta é quem que provoca música com os vocábulos. E afasta a afasia. Certa aversão pela idéia difundida pelo senso-comum da vida (e da poesia) como algo contínuo. Poemas são seres vacilantes, como animais, ORGANISMOS, e parecem estar o tempo todo querendo incorporar o caráter fragmentário e material da experiência. Por isso, parecem muitas vezes "incompletos".

7.

Se "poesia é a promessa de uma linguagem" (Hölderlin), então o poema é um não-lugar, uma utopia. Seu sentido é seu movimento.

8.

O poema é um ultraje (outrage), um contra-texto.

9.

De olhos fechados: o universo é vermelho.

10.

Você diz

que não há nada de novo

sob o sol.

Isso pode valer para o sol,

mas não para nós.

(apud Apollinaire)



11.

Um "eu" que é um olho, o olho que é um outro, o outro que é um. A consciência da consciência. Um teste de solitude.

12.

Poder pensar, como Paul Cézanne, que as palavras é que se pensam através de mim.

13.

A natureza nos desconstrói sem que notemos, e a noite restaura a memória das percepções que usaremos, no dia seguinte, para reconstruir a natureza e a nós mesmos.

14.

Nos fala, nos media, nos habita. Sempre a caminho. Não há como escapar. Nelas estamos em nossa única casa, ou fora, ou estamos a sós.

15.

Todas as abordagens poéticas (seja através de iluminuras, personas, objetivos correlativos, colagem, simultaneismo, pastiche, ostranenie, ideograma, non-sequitur) desembocam, por operações distintas, na grande questão: o espaço habitado pela poesia enquanto matéria mental, entre palavra e mundo. Entre estar mudo e ser mundo.

16.

O nome do ventríloco era Eulírico. ("Já meu nome é eutro: o intervalo entre palavra e mundo").

17.

O poema nasce enquanto o procuramos.

18.

Como numa história de detetive, o poema, hoje, é um enigma. Seu crime começa já nas primeiras palavras. O poema nada mais é que uma seção de correlatos do sentido suspensos entre pistas falsas, fragmentos de perfis, frustrações de expectativas, que apontam inequivocamente para sua própria aparição & desaparição. O nome dessa luta invisível é o sentido.

Whodunit?

19.

Raízes rebentam o ventre da terra: pensamento selvagem.

20.

A prosa parece se traduzir em ser vidro transparente, enquanto a poesia revela manchas de mão no vidro, trincas, poeira, as imperfeições da superfície.

21.

Talvez poemas devessem ser mais que simplesmente escrita sobre experiências, e sim escrita como experiências.

22.

Produto e processo, num poema, têm que ser pensados juntos. O que e como são siameses. Esmero excessivo desvirtua o palácio da sabedoria.

23.

O desafio tem sido esse: investigar como se dá o processo de transferência do mundo "real" ao mundo "poético". Me interessa este momento único que se dá na percepção: no choque do "dentro" com o "fora" (Como aquilo virou isto?). E o poema seria exatamente a tradução simultânea desta percepção em palavra, energia, usina, poesia. E o poema surge como o resultado desse atrito entre consciência e mundo, fruto dessa tensão e, antes que me esqueça, desse prazer.

24.

O momento em que o poema se fecha é o momento em que ele se abre para o leitor.

25.

A idéia tradicional de prosa, para mim, é que o texto parece nos colar numa temporalidade, um estado absortivo, com as palavras quase parecendo passar transparentemente da página para a mente, ("uma câmera filmando tudo isso", sem erros de continuidade), enquanto a poesia atua com mais freqüência em saltos, cortes, surpresas, desconstruções sintáticas, frustração de expectativas, associações, conexões, desconexões.

26.

Vai ver a poesia seja uma necessidade estética da consciência.

(Apud Macedonio Fernandez)




Escrito por Erly Welton às 15h38
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Short Trip

minha cidade
cai pela janela
como um cisco

meu olho
caleidoscópio
é o coração que acolhe
fragmento por fragmento
até que toda cidade
e sua história
caiba dentro
 
nessa rua, por exemplo,
já passei há muito tempo
mas não tinha esse olhar
indo embora
 
para o futuro,
a memória desse momento
que passou agora
será a lembrança de outro
e ainda outro mais antigo
 
caio como um cisco
na cidade
somos, as duas,
uma rápida paisagem.
             
                          De passagem.


Alice Ruiz

 


Publicado no blog Alice Ruiz S

 



Escrito por Erly Welton às 15h28
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Ternurinha

chuva de verão
espremida entre os bambus
minha aldeia

 
Issa Kobayashi
 
samidare no
take ni hasamaru
zaisho kana
 
my native village
squeezed in among the bamboos,
in the summer rain


(RH Blyth tradução)


E aqui termina minha pequena série de traduções/recriações para apresentar Issa. Já pensei em traduzi-lo todo e tenho várias outras tentativas. Mas, tentativas que são, ainda não podem ser apresentadas. Gosto de seu jeito de dizer a verdade nua e crua, de uma forma clara, humorada e, às vezes, um pouco grosseira. Sua poesia fluia com a liberdade do pensamento, sobre todos os temas, inclusive o sexo, tema tabu para a maioria dos haijins. Assim que resolver alguns desses, terá mais Issa nessas páginas.
Alice Ruiz

do seu recém inaugurado blog Alice Ruiz S




Escrito por Erly Welton às 15h14
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haicais em cinco estações

 

1.

primavera só
enquanto cor o dia
arco-íris tem flor


2.

minha calma vai
folha que voa livre
no azul céu outonal

3.

o tempo é sol
presente em só quatro
estações sentimentais

4.

cobre o mundo
branco sobre o prado
neve de cristal


5.

beija-flor bebe
doce orvalho branco
fina flor de luz



Escrito por Erly Welton às 14h59
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spirituals do orvalho


Neuza Pinheiro, poeta, cantora e compositora (já atuou com Arrigo Barnabé (veja vídeo) e gravou um dos mais belos discos da boa música) está finalmente publicando seus poemas, idéias e escritos num blog. O poema abaixo foi tirado de lá, mas só para fazer propaganda.

FORA DE ESTAÇÃO

Lateja
dormente em mim
uma centelha
semente
uma árvore lateja
dormente
somente
em mim


(n. pinhero)


-.-.-.-.-.-.-
(pintura: Pejot's)


Veja aqui


Neuza Pinheiro c/ Arrigo Barnabé no Festival Universitário de MPB - ECA/USP - em 1979



Escrito por Erly Welton às 10h21
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Codex Seraphinianus...

Luigi Serafini

 


 

e o Codex Riccius

 

Erly Welton Ricci

 


 



Escrito por Erly Welton às 16h49
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Pedra dos mitos

 

A hora mais pesada é aquela

Que ainda vem

Enquanto eu

Sísifo

Heráldico

Da pedra e da montanha

Sopro letras de sabão


 

A hora mais pesada será ainda

Mais adiante

Porquanto eu

diógenes

estóico

sem lupa e sem livro

a lâmpada apagada


 

A hora mais pesada é a que está por vir

Antes que eu

Verdugo

Wakizashi

No ventre e na garganta

Corte a última palavra



Escrito por Erly Welton às 08h37
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O mundo está fraco de poesia - eu sei

 

1

nesses tempos de fim das civilizações

poesia é só a tez do céu rasgado

como uma fazenda sem detalhes

um mar de águas rígidas na tarde úmida

o cal de muros separando ruas

e relógios digitais

exceto véu e máscara

dos detalhes cognitivos

o mundo está fraco de poesia - eu sei

 

2

cada palavra é um propósito

de todas as pontes

paisagens de todas as terras

velas de todos os navios

pirâmides sem nada dentro

ruídos dos muros nos quintais

naus que podem não voltar

 

3

bem onde a besta ruge

há horizontes de mortos-vivos

sob o inclemente sol fisiológico

erros de dados nas janelas

pestanejam nas salas abandonadas

erma sombra das palavras

sem lapso de memória

e sem lei

corpo etéreo o mito vaza

dos sonhos

para a quadra da vâ metáfora




Escrito por Erly Welton às 17h54
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Pensamento

extraído do blog Estúdio Realidade, do poeta e tradutor Rodrigo Garcia Lopes


"A poesia é apenas a evidência da vida.
Se sua vida está queimando bem,
a poesia é só a cinza".

"Poetry is just the evidence of life.
If your life is burning well, poetry is just the ash."
LEONARD COHEN

 


 



Escrito por Erly Welton às 17h34
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catacredos


não tenho

ser
nem honra


nem fé nem lei


a faca do crime
não sei


nenhuma idéia
ou meia na mala


e enquanto tarda
azia das horas


a dor que sinto
não estala


a morte que vivo
em boa hora


escravo cardíaco
réu do desejo


para o decurso
das coisas tolas


não há nada além
do que vejo


feixe de nervos
nau sem mar

sem
proa

sou muitas
mentiras

uma só
pessoa





Escrito por Erly Welton às 17h21
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TERÇA-FEIRA - TEMPO INSTÁVEL NO SESC VILA MARIANA

Meu amigo Mário Bortolotto me enviou convite por e-mail e estou estendendo aos meus leitores. Vão lá, vai ser um evento imperdível pra quem gosta do bom rock'n'roll e de um blues como poucos no Brasil sabem fazer:

"Amalfi e eu montamos essa banda em 2.003, no Teatro Cemitério de Automóveis (que a gente tinha lá na Rua Conselheiro Ramalho). Quando acabavam as peças, o Amalfi pegava uma guitarra, eu pegava outra e a gente ficava tocando lá embaixo. Um dia fui na casa dele com algumas letras e a gente fez de cara seis músicas. A primeira foi "Janelas". O primeiro show da banda foi no Teatro mesmo, no lançamento do meu livro "Bagana na Chuva". Cinco anos depois estamos conseguindo finalmente lançar o CD. Não foi fácil e queria dedicar esse lançamento pro Napetinha (Noa Stroeter - o baixista da banda) que tá na Holanda agora, mas que com certeza gostaria muito de estar amanhã com a gente lá no Sesc Vila Mariana. O carinha que tá substituindo o Noa (o Caçarola) é muito bom também e tá tudo certo, mas seria du caralho ter o Napetinha tocando amanhã com a gente. É muito difícil reunir essa banda porque a rapaziada toca em uma porrada de lugares. São todos ótimos músicos tipo aqueles caras que estudam música desde moleques (aliás os quatro fizeram faculdade de música e eram da mesma turma). Mas amanhã a gente vai estar lá lançando o nosso CD. O Fábio Brum deve participar tocando guitarra em algumas músicas e talvez o Paulão apareça pra cantar "Coçando o saco e ouvindo blues". Enfim, vai ser du caralho".

Tempo Instável é :

Mário Bortolotto (vocal)

Marcello Amalfi (guitarra e trompete)

Fernando Miranda (piano e teclados)

Caçarola (baixo) Conrado Maia (bateria)

_____________________


Terça-feira (dia 13 de Janeiro)

Lançamento do CD "Tempo Instável" Sesc Vila Mariana - Auditório Rua Pelotas, 141

R$ 12,00 - Inteira R$ 6,00 - estudante, usuário matriculado no SESC e dependentes R$ 3,00 - trabalhador no comércio e serviços matriculado no SESC e dependentes

Às 20h30 O CD morre em R$ 10,00

As fotos são de Luiz Filipe Ogro



Escrito por Erly Welton às 16h58
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Soltos de imensidão

Carlos Nejar

Os anos, Elza, já não gravam nada,
 porque gravamos nós o tempo todo.
 O teu cuidar, faz-me animar o fogo
 e cada dia em nós, jamais se apaga.

 Provados somos e o provar é um gomo
 desta romã partida pelas águas.
 Somos o fruto, somos a dentada
 e a madureza de ir no mesmo sonho.

 Os anos, Elza, não consertam mágoas,
 mas as mágoas não correm, se corremos.
 Não encanece a luz, onde são remos

 da limpa madrugada, os nossos corpos.
 Amamos. No existir estamos soltos,
 soltos de imensidão entre as palavras.
 

Aos senhores da ocasião e da guerra

Carlos Nejar

   A vós, que me despejastes
 nesta loucura sem telhas
 e neste chão de desastres,
 acaso devo ajoelhar-me
 e bendizer as cadeias ?

 E ser aquele que acata
 as ordens e ser aquele,
 apaziguado e cordado,
 preso às aranhas e às teias.

 Levando o sim em uma das mãos
 e o não noutra, rastejante
 aos senhores da ocasião
 e da guerra. Ser no chão,
 o inseto e sua caverna ?

 Corrente serei
 no recuo das águas.
 Resina aos  frutos do exílio.
 Espúrio entre as bodas.
 Resíduo.

 Até poder elevar-me
 com a força de outras asas,
 para os meus próprios lugares.

 A vós, que me despejastes
 nesta loucura sem telhas
 e neste chão de desastres,
 com a resistência das penas,
 aceitarei o combate. 

http://www.nejar.cjb.net/



Escrito por Erly Welton às 16h21
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Um músico extraordinário
Luís Nassif

 



Waltel Branco é o derradeiro integrante de uma seleção brasileira de maestros, contratados da Rede Globo, que tinha em Radamés Gnatalli o Pelé. Quando se decidir a divulgar Waltel, é possível que se descubra um dos mais célebres músicos anônimos do país.

Waltel nasceu em Paranaguá em 22 de novembro de 1929. Seu primeiro professor foi o pai Ismael Helmuth Scholtz Branco, saxofonista e clarinetista. Quando o conheci, me passou a nítida impressão de ser mulato. Na foto do livro (A Desconstrução da Música na Cultura Paranaense de Manoel de Souza Neto), parece mulato. Mas é neto de alemães legítimos.

Uma gravação com o acordeonista italiano Cláudio Todisco, nos estúdios da Odeon, permitiu-lhe conhecer o maestro Radamés Gnatalli. Não levou muito tempo para ser convocado para tocar com o mestre. Depois, passou a ter aulas de regência com dois outros maestros históricos, Alceu Bocchino e Mário Tavares. Conseguiu ser o maestro que ensaiou a orquestra nos concertos de Stranvinsky no Rio de Janeiro.
Aos 20 anos, rumou para Illinois, EUA, atrás de aulas com o guitarrista Sal Salvador, que tocava com Nat King Cole. Dava aulas de violão clássico para sustentar o aprendizado de jazz. Chegou a tocar em um trio com Nat King Cole, além de ter produzido o disco de seu irmão Fred Cole e, mais tarde, o de Natalie Cole, filha de Nat.

Depois, participou de um trio com o baterista Chico Hamilton. Nesse período, conheceu Peggy Lee, cantora que se casou com o maestro Quincy Jones. Waltel se casou com a irmã de Peggy, Lede Saint-Clair Branco, tornando-se, por força do casamento, co-cunhado de Quincy Jones. Com ele tocou muito jazz e música clássica e conheceu o maestro Henry Mancini.

Na época, Mancini promovera uma revolução nos direitos autorais. Até então, os direitos eram todos dos estúdios. Quando sobreveio a crise dos estúdios, aceitou fazer trilhas sonoras para a nova produção, com a condição de ser o titular dos direitos. Estourou na primeira trilha, para o seriado de TV "Peter Gunn". Ao lado de outros pioneiros, como o argentino Lallo Schiffrin, montou um escritório para atender à nova demanda. Assim que ouviu nosso Waltel tocar, contratou-o. E foi nessa condição que Waltel tornou-se o arranjador de uma das mais famosas trilhas sonoras da história do cinema, do filme "A Pantera Cor de Rosa".

De volta ao Rio, Waltel pegou o início da bossa nova. Fez todos os arranjos do "Chega de Saudades", de João Gilberto, seguindo o método peculiar do violonista. João Gilberto o chamava, mostrava a harmonia que desenvolvera ao violão, e Waltel a seguia para o arranjo, como se cada instrumento seguisse uma corda. Depois gravou dois discos solos, "Guitarra em Chamas 1 e 2", tendo como acompanhador o violão de Baden Powell.

Em 1963, nos EUA, conheceu o jornalista Roberto Marinho, que o convidou a ser crítico musical do jornal "O Globo". Quando foi constituída a TV Globo, Waltel foi contratado, indo compor um time de primeiríssima, com Radamés, Guerra Peixe e Guio de Moraes. Compôs e dirigiu as trilhas sonoras, entre outras, de "O Bem Amado", "Roque Santeiro" e "Morte e Vida Severina".

Tempos depois, o chileno Zamacois, que ele conhecera em seus tempos no seminário de Curitiba, convidou-o a ir para a Espanha. Lá, estudou mais harmonia e técnicas de violão, venceu o concurso da Rádio Difusora Francesa e, como prêmio, ganhou uma bolsa para estudar com Andrés Segóvia, o maior violonista clássico do século. Fã de Segóvia, que tocava desde criança, Waltel se lembrava de peças das quais o próprio mestre se esquecera. Em vez de aulas, passou a tocar junto com Segovia.

Tempos atrás, seu amigo Fidel Castro ficou chateado com o "Buena Vista Social Club" de Win Winders, por suas distorções musicais, e incumbiu o maestro Leo Brower (adido cultural da diplomacia cubana e o compositor para violão clássico mais prestigiado da atualidade) de providenciar uma nova versão, mais autêntica. Quem Brower convoca para a empreitada? Entre outros, Waltel Branco.

Neste site tem um disco esgotado do Waltel para download.
Aproveite!



Escrito por Erly Welton às 16h34
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Poegifs de Marcelo Sahea

 

REPITO
Poegif desenvolvido a partir de
poema inédito



guarDAR
Poegif desenvolvido a partir do
poema homônimo do livro

"carne viva "
, de 2003

 

FOME
Poegif desenvolvido a partir do
poema homônimo do livro

"carne viva "
, de 2003

(este poegif integrou o projeto
Poema Passageiro, dentro da
Mostra SESC de Artes 2008 - SP)

GOSTOU? QUER VER MAIS?

 http://www.sahea.net/imgblog/poegif/index.html

POEGIFs by Marcelo Sahea is licensed under a

Creative Commons Atribuição-Uso Não-Comercial-Vedada a Criação de Obras Derivadas 2.5 Brasil License.



Escrito por Erly Welton às 17h03
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COYOTE 18 CHEGA ÀS LIVRARIAS

 Revista Coyote lança novo número, tendo como destaques um dossiê com a escritora Márcia Denser, ensaio de Michel Houllebecq, fotos de Iatã Cannabrava, a poesia de Joca Reiners Terron e traduções de Wyslawa Szymborska, Paul Éluard e Jack Kerouac

 

"Pode haver derrota mais execrável do que quando se é corroído por dentro pelas secreções ácidas da sensibilidade até que perdemos nossa silhueta, dissolvidos, liquefeitos? Ou quando a mesma coisa acontece na sociedade em nossa volta, e mudamos nosso próprio estilo para ficarmos parecidos com ela?". Yukio Mishima sintetiza, no editorial do número 18 da revista editada em Londrina (PR), o espírito de revolução permanente de nossas sensibilidades e da nova edição da Coyote.

Coyote 18 resgata o talento e a lucidez furiosa da escritora Márcia Denser. Como escreve Ademir Assunção na apresentação do dossiê: “Prosa densa, labiríntica, poética [...]. A cada livro, seu texto (e, principalmente, o subtexto) vem funcionando como uma broca de prospecção, cavoucando cada vez mais fundo os conflitos humanos”.

A prosa brasileira está representada também  na edição pelo cearense Pedro Salgueiro e pelo pernambucano Alberto Lins Caldas. Já a poesia contemporânea exibe sua riqueza e variedade nos poemas de Joca Reiners Terron, Beatriz Bajo, Celso Borges e Zhô Bertholini.

A revista apresenta ainda a poesia da polonesa Wislawa Szymborska (traduzida por Regina Przybycien), prêmio Nobel de 1996, e incrivelmente ainda inédita em livro no Brasil, bem como um conjunto de poemas de um dos fundadores do movimento surrealista, Paul Éluard (traduzido por Eclair Antonio de Almeida) e, pela primeira vez no Brasil, haikus de Jack Kerouac (em tradução de Rodrigo Garcia Lopes). O próprio escritor norte-americano assim se referia aos haikus: “Acima de tudo, um haiku deve ser bem simples e livre de qualquer truque poético e pintar um quadro e ainda assim ser tão leve como o ar, gracioso como uma Pastorella de Vivaldi”.

O escritor francês Michel Houllebecq marca presença em ensaio poético “Manter-se Vivo: Méthodo”, traduzido por Sandra Stroparo, em que afirma: “Nas feridas que ela nos inflige, a vida se alterna entre o brutal e o insidioso. Conheça essas duas formas. Pratique-as. Adquira um conhecimento completo. Distinga o que as separa e o que as une. Muitas contradições, então, serão resolvidas. Sua palavra ganhará em força e em amplitude”.

O fotógrafo Iatã Cannabrava assina a capa e o ensaio fotográfico da edição, “Uma Outra Cidade”, com imagens da periferia de São Paulo. O número fecha com o cartum de Paulo Stocker para o “Movimento Contra Malhação de Judas”.

Em seus seis anos de atividade, Coyote prossegue abrindo espaço para novos autores, resgatando e apresentando nomes importantes das letras e das artes, de épocas e lugares diferentes, instigando a reflexão e a criação literária. A revista é patrocinada pelo PROMIC (Programa Municipal de Incentivo à Cultura) da cidade de Londrina.

COYOTE é editada pelos poetas Ademir Assunção, Marcos Losnak e Rodrigo Garcia Lopes. Projeto gráfico de Marcos Losnak. Tem periodicidade trimestral e distribuição nacional (em livrarias) pela Editora Iluminuras.

 

COYOTE 18 // Primavera de 2008 //  52 páginas  // R$ 10,00

Uma publicação da Kan Editora. Vendas em livrarias de todo o país pela Editora Iluminuras – fone (11) 3031-6161 (site: www.iluminuras.com.br). Pode ser adquirida também na internet pelo Sebo na Bac: www.sebodobac.com

 

Contatos: losnak@onda.com.br/rgarcialopes@gmail.com/zonabranca@uol.com.br

Fone: (43) 3334-3299  /  (11) 3731-3281

 

PATROCÍNIO: PROMIC - PROGRAMA MUNICIPAL DE INCENTIVO À CULTURA – SECRETARIA MUNICIPAL DE CULTURA DE LONDRINA (PR)



Escrito por Erly Welton às 17h22
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é hora de acordar



Escrito por Erly Welton às 14h13
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TARDE DEMAIS



Escrito por Erly Welton às 11h58
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Recado

 

à remota noção

do cal

e o giro da água

e do fogo

à mulher nua

sob o pedestal

do filho

e do pai

ao vórtice da terra

e do ar  madeira crua

que se planta

e se cultua

- sistêmica lida

à quem em sódio fervilha

escrevo:



Escrito por Erly Welton às 13h20
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Nosso medo

 

Não usa sapatos novos

Nem assoma na janela

O uivo de sete paredes

Nosso medo

 

Ruas mal-iluminadas

Pedra assentada no ombro

O que espreita na lida

O nosso medo

 

Signo de nenhuma estrela

Crucificada no erro

Em vestes corruptíveis

Nosso medo

 

Fala pelos cotovelos

Entre ossos e lama e aço

Cerra olhos e punhos

Nosso medo

 

Não tem a morte no rosto

Não oferece a outra face

Ferro e fogo do verso

O nosso medo

 

Cálice de vinho e veneno

Inverno de mitos sangrentos

Desperta mil vezes em cena

O nosso medo

 

É uma montanha de pedra

Ciência e deuses no Olimpo

Rosário de cal e areia

Nosso medo

 

Punhado de sal na têmpora

O dia que ainda não veio

Barco na névoa espessa

Nosso medo

 

Cova rasa do julgamento

A linha de qual horizonte

Minúcias de cal e areia

Nosso medo

 

São farpas e ferpas na unha

Estrada longa e estreita

Reza pra todos os santos

O nosso medo

 

Ferrugem no pó e nos pelos

O sangue de metal e fungos

A certeza de não sabermos

O nosso medo

 

Em doze motes de cera

Ferro de muros e cercas

Arame em torno do punho

O nosso medo



Escrito por Erly Welton às 15h59
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Minuto


Lá vem você
Se passando por vento
Como se ninguém te visse

Lá vem você dublando pensamento
Como uma praia que se sentisse

Pra perto do risco, do riso, do início, do surf (do transe)
Das ondas das dunas do espanto

Lá onde o calar fala mais alto
E o momento comemora

Com um minuto de silêncio

(Rodrigo Garcia Lopes)



Escrito por Erly Welton às 20h52

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Manifesto

O poeta Jairo Pereira e eu estamos marcando para o próximo mês um manifesto poético em Curitiba. Deverá ser em algum bar no centro da cidade e talvez em mais algum espaço público, com leituras, música e entornadas etílicas. Convido todos os "amigos" e "inimigos" para a noitada dos "sem editora" e garanto: a qualidade é das coisas que são universais, muito além da pessoalidade desses tempos mercadológicos.



Escrito por Erly Welton às 20h48
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O poeta não sai de férias

Ademir Assunção, um dos melhores poetas que conheço, fechou sua ESPELUNCA (BLOG http://zonabranca.blog.uol.com.br/)   e avisa que talvez não volte. É uma grande pena, porque me instigava sempre a me renovar e não permitir que a mediocridade scholar invadisse minha poesia. Tomei a liberdade de tungar de lá o poema:

 

HOMELESS REZANDO DEBAIXO DA MARQUISE

 

não venha Velha Tristeza, não venha

cobrir-me com seu escuro vestido de veludo

azul, não venha

apagar as estrelas que ainda cintilam

no Céu do Abandono, não venha

 

que veneno corre no sangue?

que sol opaco é este

que trinca icebergs com dentes de nicotina?

 

não venha Velha Tristeza, não venha

com suas doses baratas de conhaque

com suas palavras cheias de armadilhas

com seu olhar paralisante, pequeno demônio

girando no centro de uma galáxia catatônica

 

já quebrei todos os espelhos, já soltei

os leopardos, já tentei dormir debaixo

dessas nuvens carregadas

 

não venha Velha Tristeza, estou avisando

não venha

(Ademir Assunção)



Escrito por Erly Welton às 20h40
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