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Poemas da Revista Piauí para o Flip A BELA E A FERA I Eucanaã Ferraz Em cruzar a sala zumbindo sua navalha o besouro-ébano espanta o piano que se ergue atrapalhado, plantado na ponta das patas sem poder, do chão, tocar o ouro absoluto da negra couraça que inseta o ar ali com sua canção. E o pobre Steinway supõe ser a nave um sinal, um seu semelhante, um filho talvez. ____________________________________ A BELA E A FERA II Eucanaã Ferraz Em cruzar a sala zumbindo o ouro negro de sua couraça o besouro absoluto ébano espanta o piano que, plantado no chão, ergue-se atrapalhado na ponta das patas sem poder tocar a nave que navalha o ar com sua canção-verniz. E o pobre Steinway supõe ser o inseto ali um sinal, um seu semelhante, talvez um filho. ___________________________________ NA GÁVEA Luís Miguel Nava Ocorre-me de vez em quando a idéia de que o homem que nos barcos sobe à gávea o faz na realidade apenas para perscrutar a sua própria pele, obter dela uma outra perspectiva, funcionando o mar como uma representação muito aumentada, qualquer coisa como uma metáfora ou uma lente. É pelo menos desse homem que eu me lembro sempre que sobre a minha pele, inquieto, me debruço, a avaliar os mais leves prenúncios de intempéries. ___________________________________ PEDRA Zbigniew Herbert A pedra é uma criatura perfeita igual a si mesma percebe seus limites é perfeitamente preenchida por seu sentido de pedra seu cheiro não lembra nada não assusta não excita seu ardor e frieza são justos e dignos sinto um grande remorso quando a pego na mão e seu corpo nobre é envolvido pelo meu falso calor - Pedras não podem ser domadas até o fim nos olharão com olhos calmos e transparentes Tradução_Sylvio Fraga Neto e Danuta Nóbrega ___________________________________ OBJETOS Zbigniew Herbert Os objetos inanimados são sempre corretos e, infelizmente, não se pode censurá-los por nada. Jamais vi uma cadeira deslocar o peso de um pé para outro, nem uma cama empinar-se sobre as patas traseiras. E as mesas, mesmo quando cansadas, não ousam dobrar os joelhos. Desconfi o que os objetos ajam assim com intenção pedagógica, a fi m de nos reprovar constantemente por nossa instabilidade. Tradução_Paulo Henriques Britto 
Escrito por Erly Welton às 14h26
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Oficina de Textos Poemas SENTINELA Eu queria ser uma sentinela, Fumando e esperando. Vigiando e fumando. Quem vigia não pensa, fuma, Quem pensa não vigia, deserta. Eu fumaria e vigiaria a noite inteira, Esperando, esperando, até eles não chegarem. Fumando como uma sentinela. THE ART OF SHAVING Quando eu era um rapazola, Barbeava-me apressado, displicente, Mal sabia eu que, dentre os petrechos para tanto, Havia o pincel com pêlos de texugo. Hoje, os vapores me abrem os poros da pele, A lâmina é sempre afiada, constantemente substituída, O barbear é lento, calmo, porém rigoroso e ritmado, E há sempre cosméticos que esfoliam, suavizam, acalmam. Se tens tu uma bela barba, cultive-a. Mas se fores rapar a cara, faça-o com tempo. O barbear sempre diferencia o Aristocrata do Pelintra. Eu nunca vi um texugo, mas sei que eles existem, E que dão os melhores pincéis, pois, há coisas de sabença mais antiga. Que não são aprendidas, somente sabidas e consabidas. EUGÊNIA A primeira vez que vi Eugênia me apaixonei. A segunda vez que vi Eugênia nos casamos. A terceira vez que vi Eugênia ela se tornou mãe dos meus filhos. A quarta vez que vi Eugênia pedi desculpas, e ela aceitou. A quinta vez que vi Eugênia ela estava morta, coberta por um véu diáfano. E olhe que nem tivemos tempo para uma conversa sincera.
Rogério Gaspari Coelho, São Paulo - SP
Escrito por Erly Welton às 14h18
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